quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Literatura infantil

            Literatura Infantil não se trata apenas daqueles livros infantilizados e bobinhos, pelo contrário, a verdadeira literatura infantil é aquela que consegue conquistar a criança, transportá-la para um outro mundo, e é aquela também que contribui de alguma forma para o seu desenvolvimento, seja tratando de temas de seu interesse ou contribuindo para a sua criatividade. Mas ainda assim é uma literatura para a qual muita gente não dá a devida atenção, relegada ao preconceito, ao rótulo de uma literatura menor, e até mesmo fácil, são poucos os que conseguem enxergar a preciosidade dela.
            Para se pensar em literatura infantil, a primeira pergunta que devemos fazer é: o que é a infância? O que é ser criança? Essa é uma pergunta difícil de responder. Não é novidade para ninguém que o mundo está mudando, e com ele, a forma como as crianças são educadas.
Antigamente as crianças deviam obedecer aos pais sem questionar, eram preparadas desde cedo para seguir seus papéis na sociedade, não existia muita noção de infância como o que conhecemos hoje, as crianças eram consideradas mini-adultos. De uns tempos para cá, as coisas mudaram muito: as crianças ficaram mais livres, mais independentes, podiam fazer o que queriam, tinham autonomia para fazer algumas escolhas e não precisavam se preocupar muito cedo com o futuro. Hoje em dia a coisa está ainda mais diferente, temos a impressão que o período dedicado à infância está ainda menor, com as crianças querendo crescer o mais rápido possível. Tudo isso interfere diretamente na definição de literatura infantil, pois à medida que as crianças mudam, o que elas lêem também muda. E isso varia não só de acordo com a época, mas também de acordo com o país e cultura.
            Como deve ter ficado claro, a literatura infantil é definida de acordo com o seu público. Como escreveu Cecília Meireles*: “são as crianças, na verdade, que a delimitam, com a sua preferência. Costuma-se classificar como Literatura Infantil o que para elas se escreve. Seria mais acertado, talvez, assim classificar o que elas lêem com utilidade e prazer. Não haveria, pois, uma Literatura Infantil a priori, mas a posteriori”.
A literatura infantil é, em muitos casos, a primeira forma de contato do ser humano com a literatura, da criança com o mundo que a cerca e com o mundo desconhecido. A boa literatura infantil pode ajudar as crianças a vencer medos, refletir sobre alguns assuntos importantes, entender certas coisas, mesmo que ela não tenha consciência disso no momento em que está lendo (ou ouvindo), essas histórias são fundamentais para a formação do indivíduo. Além de servirem também, e principalmente, para a criança se divertir, pois já passou o tempo em que esse tipo de literatura era apenas pedagógico.



Um pouco sobre a origem

            Desde muitos séculos atrás, as pessoas se reuniam para contar e ouvir histórias. As sociedades eram principalmente orais, quase não existiam livros e não havia a noção de criança como um ser menor e dependente, em muitos lugares e em muitas épocas na história do mundo a criança era considerada igual ao adulto, tinha que trabalhar e levar uma vida normal. Assim, todos, crianças e adultos, se reuniam para ouvir as mesmas histórias, e todos gostavam. Não existia essa divisão de histórias para crianças e histórias para adultos. E a maioria dessas histórias que as pessoas contavam eram mitos, lendas ou histórias que hoje são consideradas contos de fadas, ou ainda do tipo das que podem ser encontradas nos livros As mil e uma noites ou Calila e Dimna, por exemplo.
Um dos tipos de história mais lembrados quando se pensa em literatura infantil são os contos de fadas. Estes chegaram até nós através dos irmãos Grimm, de Andersen, de Perrault. O que esses autores fizeram foi reunir as histórias populares que circulavam e colocá-las por escrito. Ou seja, eles reuniram as histórias, podem tê-las contado de seus jeitos, mas não são os autores, pois se tratam de narrativas populares, passadas oralmente pelas gerações. E também não são necessariamente os primeiros a fazer isso, há registros de livros de contos de outros autores menos famosos que são anteriores a esses que conhecemos.
Essas histórias “originais” não têm nada a ver com as versões que as crianças conhecem hoje pela Disney. Elas eram muito mais sombrias e cruéis, sempre tinha alguma morte, ou sangue, mas naquela época ninguém achava isso violento e impróprio para os pequenos (em breve colocarei aqui algumas versões antigas de algumas histórias clássicas, aguardem...)
O que aconteceu foi que o mundo foi mudando, a criança foi cada vez mais transformada no ser frágil que precisa ser protegido do mundo, e assim as histórias para elas foram amenizadas.
Há algumas décadas a criança era o ser que precisava obedecer sem contestar, e se preparar para ser adulto. A literatura infantil dessa época acompanhava isso, vemos livros com muitas morais, onde os personagens eram crianças certinhas, e quem desobedecia era punido.  No Brasil, esses foram os primeiros livros a receberem o nome de “literatura infantil”, e era o que as crianças liam nas escolas, totalmente pedagógicos. A situação no país só mudou com o surgimento de Monteiro Lobato, considerado o pai da literatura infantil brasileira, devido à evolução que ele gerou com seus livros, mas isso já é assunto para uma outra vez...
Então, para finalizar por hoje, cito novamente Cecília Meireles*:

“Ah! tu, livro despretensioso, que na sombra de uma prateleira, uma criança livremente descobriu, pelo qual se encantou, e sem figuras, sem extravagâncias, esqueceu as horas, os companheiros, a merenda ... tu, sim, és um livro infantil, e o seu prestígio será, na verdade, imortal.”



* Livro: Problemas da literatura infantil. Belo Horizonte, Publicações da Secretaria da Educação do Estado de minas Gerais, 1951.

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